Conhecimento produtivo: a ordem é acumular para crescer

Vivemos inegavelmente em uma sociedade do conhecimento. Está provado que economias que detém mais conhecimento aplicado em seus processos produtivos são mais prósperas, isto é são mais ricas. Quero explorar brevemente como se dá esse mecanismo e algumas lições para nosso país.

Primeiramente, sem desejar entrar em um debate sobre teoria da produção ou da mercadoria, postulo aqui que para a produzir um bem ou um serviço é necessário know-how. Desculpe-me o anglicismo, mas não encontro uma melhor expressão em português. Know-how é a combinação de conhecimentos e habilidades necessárias para a realização de tarefas. Para produzir um produto, não basta apenas ter acesso às melhores ferramentas, é necessário saber utilizá-las. Por exemplo, para produzir um relógio mecânico, não basta ter à disposição um conjunto de engrenagens, é preciso saber como encaixá-las e montá-las. 



Para expor meu raciocínio, vou recorrer a analogias. Pense em um produto qualquer. Uma caneta, um celular… Imagine que esse que produto seja uma cápsula. Cápsula esta composta por diversos tipos de conhecimento, ou know-how. Um creme dental por exemplo, seria uma cápsula composta por know-how referentes à odontologia, à química, a plásticos. Já um outro produto, um automóvel é composto por uma combinação de conhecimentos sobre design, física, mineração (dos componentes metálicos), eletrônica, etc. Isso sem falar em conhecimentos sobre logística (transporte de materiais) e gestão de empresas, sem os quais não seria possíveis viabilizar esses produtos.

Pense agora na produção de bens e serviços como um jogo de palavras cruzadas. Nesse jogo, cada letra é um tipo de know-how. A combinação de letras, isto é, as palavras são como produtos. O desafio é formar mais palavras e somar mais pontos. Suponha que tenhamos disponíveis 4 letras (ou competências para a realização de tarefas): A, T, C, N. Podemos combinar essas quatro letras para formar palavras como CANA (com 6 pontos) ou NATA (com 4 pontos). 

Digamos que um país desenvolva um know-how adicional. Em nosso jogo de palavras cruzadas, por exemplo a letra E de “extrusão de plástico”. Com essa letra ou conhecimento produtivo adicional já seríamos capazes de formar a palavra CANETA (com 8 pontos). Ou ainda, caso tivéssemos à disposição uma letra nova adicional, por exemplo a letra O (de química “O”rgânica) seria possível fabricar um produto mais complexo, ou seja, formar uma palavra mais longa. Digamos, ACETONA (com 9 pontos). Contudo, ainda não poderia formar uma palavra como CINEASTA pois me faltariam as letras S e I.


A partir dessa analogia, qual é a conclusão para o desenvolvimento produtivo de um país? 

São 2 as principais conclusões:
1. Palavras que requerem mais letras são mais difíceis de formar, ou seja:
  • produtos que requerem mais know-how (ou conhecimento produtivo) são mais raros e difíceis de produzir
2. Com uma maior variedade de letras disponíveis é possível formar uma maior combinação de palavras, ou seja:
  • países que possuem mais know-how acumulado são mais diversificados, isto é, produzem uma maior variedade de produtos, incluindo produtos mais complexos (com mais conhecimentos embutidos)

Vamos a casos reais... Vamos selecionar 3 locais no mundo com uma população similar, digamos aproximadamente 11 milhões de habitantes, e vejamos o que eles produzem e exportam. Pense que o fato de exportar é um indício de que esses locais são razoavelmente bons (ou competitivos) na produção desses bens. A República Tcheca é o mais diversificado desses locais, exportando produtos como roupas, medicamentos, carros e computadores. Em um nível intermediário de diversificação está o Estado do Paraná cuja pauta de exportação também inclui carros, mas predominantemente produtos agropecuários com pequeno grau de transformação industrial como carne de frango, açúcar e farelo de soja. O terceiro local, com menor nível de diversificação, é o Sudão do Sul, com uma produção baseada predominantemente no extrativismo, exportando muito petróleo.


Interessante observar nesse exemplo que o nível de diversificação desses locais está diretamente relacionado à renda média por habitante. O país com uma estrutura produtiva mais diversificada, a República Tcheca é o local com a maior renda per capita. Já o Sudão do Sul, menos diversificado e portanto com menor conhecimento produtivo acumulado, é o mais pobre deles, ou seja, com a menor renda per capita.

Será que essa relação entre a diversificação produtiva e a renda é válida para outros lugares do mundo?

Os pesquisadores da Universidade de Harvard e do MIT, Ricardo Hausmann, Cesar Hidalgo e suas equipes, realizaram um amplo de estudo utilizando claramente recursos de Big Data. Eles reuniram dados desde 1960 de exportação e importação de 185 países, com o maior nível de detalhes possível sobre os produtos comercializados, e compilaram seus achados no chamado Atlas de Complexidade Econômica. Calcularam o índice de complexidade econômica para cada um desses países, o que nada mais é do que a melhor estimativa que conheço para o conhecimento produtivo de um país. Trata-se de uma medida do quanto um país é capaz de combinar uma variedade de conhecimentos ou know-how para produzir produtos mais complexos (ou em nossa analogia, palavras com mais letras e maior somatório de pontos). 


O gráfico acima demonstra uma forte relação entre a renda per capita de um país (uma aproximação do nível de desenvolvimento e prosperidade) e o índice de complexidade econômica desses países (uma aproximação do conhecimento produtivo acumulado). No quadrante superior direito, com maior renda e maior conhecimento produtivo acumulado estão países como Japão e Alemanha. No quadrante inferior esquerdo, com menor renda e menor conhecimento produtivo estão Camarões e Sudão. O Brasil (ponto azul) está no meio desse gráfico.

A conclusão do estudo sobre complexidade econômica é que um país deve ter como objetivo acumular conhecimento produtivo e convertê-lo em produtos cada vez mais complexos.



Interessante mesmo é notar que semelhante relação entre renda e conhecimento produtivo (calculada a partir de dados do site DataViva) é válida para os Estados do Brasil, conforme o gráfico abaixo.


Mas e daí? A pergunta mais importante é: que lições podemos tirar a partir de todas essas evidências?

1. A meu ver, o Brasil carece de um sólido e amplamente reconhecido projeto de nação. Um plano como esse deve reconhecer a urgência de aumentar o conhecimento produtivo como um objetivo estratégico nacional e regional. Nesse sentido, aumentar a qualidade da educação no Brasil é extremamente necessário, porém não totalmente suficiente. Isto porque o maior nível de instrução precisa se converter em conhecimento dedicado à produção, em empreendedorismo e em inovação, com a criação de novos produtos e serviços.

2. A sociedade civil precisa se organizar melhor, combinando e reforçando os planejamentos e estratégias entre instituições, em prol do desenvolvimento de novas capacidades e competências. 

3. É preciso destravar as condições de competitividade do país, fortalecendo o ambiente de negócios.

4. Penso ainda que as instituições do sistema S têm um papel muito importante em um projeto de nação como esse, em razão de seus papéis no fortalecimento de elos de cadeias de valor e na competitividade de produtos, serviços e negócios que encapsulam conhecimento.

Veja minha apresentação sobre conhecimento produtivo:

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Sobre Fabio Hideki Ono

Um economista em busca de aprendizado e que acredita que boas práticas de gestão podem efetivamente levar ao desenvolvimento sustentável.

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1 comentários:

  1. Uma observação adicional… Sobre a relação entre a complexidade econômica e a renda per capita, os pesquisados de Harvard e do MIT argumentam que não se trata apenas de uma questão de correlação, mas de causalidade. Ou seja, segundo os estudos, ser mais diversificado induz um aumento da renda per capita de um país.

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