A tese da complexidade econômica é aplicável ao Paraná?

O ambicioso estudo de complexidade econômica, realizado por pesquisadores de Harvard e do MIT, demonstrou a relevância do “conhecimento produtivo” para explicar a prosperidade e o crescimento econômico de países. Em um post anterior, apresentei os conceitos de conhecimento produtivo (clique aqui para ver) para argumentar que as sociedades mais prósperas não são mais “inteligentes” porque seus habitantes são “brilhantes”, mas porque são capazes de combinar uma diversidade de “know-hows” para criar uma grande variedade de produtos e serviços.

Como argumentam os professores Ricardo Hausmann e Cesar Hidalgo, o indicador de conhecimento produtivo não é somente capaz de demonstrar as grandes diferenças existentes entre países, como também tem o potencial de prever a taxa de crescimento dos países. A lógica fundamental da relação entre a complexidade e o crescimento econômico é da convergência de renda. A partir de uma “fotografia” com dados de 2008, tomemos o exemplo de 2 países: Grécia e Índia. Esses 2 países, possuíam um nível muito similar de conhecimento produtivo, medido pelo índice de complexidade econômica (próximos inclusive do Brasil).

Porém, a renda per capita da Grécia era muito superior ao seu potencial (considerando uma linha de tendência) dado seu nível de conhecimento. Já o inverso acontecia na Índia, em que a renda per capita em 2008 era inferior ao seu potencial (abaixo da linha de tendência). O que ocorreu a esses 2 países nos anos seguintes? Entre 2008 e 2013 a Índia experimentou uma taxa de crescimento média anual de 6,1%, enquanto a Grécia passou por uma severa recessão, com uma queda anual média do PIB per capita de 5,5% ao ano. Tal é a confiança nessa relação que os pesquisadores de Harvard, publicam regularmente suas previsões de crescimento econômico para um grupo de países (clique para ver o estudo).

Será que esse fenômeno também é válido para escalas geográficas menores (de estados e municípios)? O que poderíamos verificar para o Paraná? Quais seriam as implicações para o desenvolvimento do Estado?

Confesso que fiquei curioso e decidi buscar os dados para verificar a validade desse modelo por mim. Antes de mais nada, convém apresentar algumas considerações sobre os dados coletados:
  • Tipos de informações: busquei na base de dados do Ipardes (dos quais muitos dados têm origem no IBGE) informações sobre emprego, renda, escolaridade, produção e desenvolvimento humano. A partir do site do Dataviva, obtive os indicadores de complexidade econômica e diversidade dos tipos de ocupação e atividades econômicas dos municípios do Paraná.
  • Período: um ou dois anos são períodos curtos para se esperar uma mudança na estrutura produtiva e variações do nível de conhecimento produtivo. Já um período 10 anos permitiria análises mais robustas. Todavia o momento recessivo recente da economia brasileira poderia distorcer as conclusões. Por isso, as informações do Censo de 2000 e 2010 seriam boas opções para se conhecer a variação da população economicamente ativa e da renda média por domicílio. Porém o Dataviva somente possui informações a partir de 2002. Sendo assim, foi necessário mesclar alguns dados municipais de 2000 com os de 2002 (chamando-os de período 0) e de 2010 com 2012 (chamando-os de período 1)
  • Complexidade econômica: o índice de complexidade econômica está disponível no site Dataviva para todos os municípios do Brasil, porém ele somente considera os produtos exportados pelo município. Visto que muitas localidades não possuem empresas exportadoras, infelizmente esse indicador não é uma boa medida do conhecimento produtivo do município. Todavia, há uma excelente alternativa e com grande correlação com o índice de complexidade econômica: o indicador de diversidade efetiva de atividades produtivas. Trata-se da quantidade de atividades diferentes (CNAE de 6 dígitos) presentes no município, mas corrigida pela participação no emprego de cada atividade. Ou seja, se um município possui 2 atividades econômicas e cada uma representa 50% dos empregos, então a diversidade efetiva é 2. Por outro lado, se a participação for de 99% e 1% do total de emprego respectivamente, então a diversidade efetiva próxima a 1, uma vez que este município possui praticamente um tipo de atividade.

Feitas essas considerações, também encontramos para os municípios do Paraná uma relação positiva entre a diversidade de atividades (uma aproximação sobre o que as pessoas do município "sabem fazer") e a renda per capita das famílias. Ou seja, a mesma relação válida para países também parece ser válida para escalas menores, ou seja, quanto maior o conhecimento produtivo, maior a renda.

Obs: esse gráfico foi extraído da visualização disponível em outro post do blog (clique aqui para ver). Nele você poderá selecionar um ponto no gráfico para identificar o município.

O que podemos dizer sobre o crescimento econômico?

Em teoria, municípios acima da linha indicada pelo gráfico teriam um nível de renda superior ao seu potencial e por isso, deveriam ter uma taxa de crescimento econômico inferior aos municípios abaixo da linha nos períodos subsequentes. Quanto maior o desvio, isto é, a distância da linha de tendência, menor deveria ser o crescimento econômico desse município.

Por outro lado, municípios abaixo da linha de tendência teriam um nível de renda inferior ao potencial dado pelo conhecimento produtivo existente e deveriam registrar um crescimento econômico superior à média.

O que se deu com o crescimento econômico dos municípios do Paraná?

O resultado mais importante é que, para quase 70% dos 399 municípios do Paraná, o crescimento econômico (medido para variação da renda domiciliar média per capita entre 2000 e 2010) seguiu tendência esperada:
  • Municípios que estavam abaixo da linha de tendência em 2000/02 e que cresceram mais do que a média do Estado representam 33,7% do total (Tipo 1)
  • Municípios que estavam acima da linha de tendência em 2000/02 e que cresceram menos do que a média do Estado representam 35,9% do total (Tipo 2)

Por outro lado, alguns municípios não seguiram a tendência esperada:
  • Municípios que estavam abaixo da linha de tendência em 2000/02 e que cresceram menos do que a média do Estado representam 20,6% do total (Tipo 4)
  • Municípios que estavam acima da linha de tendência em 2000/02 e que cresceram mais do que a média do Estado representam 9,8% do total (Tipo 3)

Tabelas: Percentual dos Municípios e Crescimento Econômico Médio Conforme os 4 Tipos de Municípios


Para entender melhor esse fenômeno, vejamos o caso de 4 municípios, cada um com uma tipologia e níveis muito semelhantes de diversidade produtiva. Saudade do Iguaçu (Tipo 2) apresentou no período 0 (2000/02) um desvio da renda em relação à tendência de R$ 273 (acima do potencial) e no período seguinte apresentou uma queda da renda de 4%. Braganey (Tipo 1) possuía uma renda R$ 123 abaixo do potencial e apresentou um crescimento da renda de 146% em 10 anos. Inácio Martins (Tipo 4) também possuía uma renda abaixo do potencial mas cresceu somente 26% (portanto, abaixo da média estadual de 55%). Já Nova Olímpia possuía uma renda R$ 20 acima do potencial e cresceu 63% em uma década.

Abaixo a posição desses municípios no gráfico de dispersão.

Dentre as 4 tipologias estabelecidas, a meu ver a mais intrigante é o Tipo 4. Se esses municípios tinham um maior potencial de crescimento, considerando o seu nível de diversidade de atividades produtivas, por que então cresceram menos que a média do Estado?

Ao estudar as características desse grupo, duas evidências chamaram a minha atenção na comparação com os municípios do Tipo 1 (municípios que efetivamente tiveram um crescimento superior à média):
  • Produtividade: o nível inicial da produtividade do trabalho (medido pela razão entre o valor adicionado fiscal e a população economicamente ativa do município) dos municípios não somente era menor para os municípios do Tipo 4  como nos 10 anos posteriores apresentou um crescimento inferior (19,1%) ao apresentado pelos municípios do Tipo 1
  • Industrialização: ainda que os municípios do Tipo 4 apresentassem uma participação da atividade industrial (40,9%) superior aos municípios do Tipo 1, medido pela participação da atividade industrial no valor adicionado fiscal, no período posterior os municípios do tipo 4 apresentaram uma queda nessa participação (-11,6%).


Conclusões:
  1. Acumular conhecimento produtivo, por meio da ampliação da diversidade de atividades econômicas, deve ser um objetivo estratégico com vistas ao crescimento econômico dos municípios. As evidências para o Paraná vão ao encontro da relação que os pesquisadores de Harvard encontraram para países.
  2. As políticas de desenvolvimento econômico devem perseguir pari passu os ganhos de produtividade. Políticas de educação e formação profissional, reformas visando a competitividade e a redução do "Custo Brasil", melhoria de práticas de gestão das empresas e do setor público e a inovação são alavancadores da produtividade dos trabalhadores.

Futuramente, pretendo explorar estratégias para ampliar o conhecimento produtivo como políticas territoriais de desenvolvimento.

Tenho muito interesse em debater essas ideias e perspectivas diferentes para esse problema. Os dados e o estudo em Stata estão disponíveis para download abaixo:
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Sobre Unknown

Um economista em busca de aprendizado e que acredita que boas práticas de gestão podem efetivamente levar ao desenvolvimento sustentável.

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