Competitividade é um jogo disputado em diversas arenas

Acabamos de sediar os maiores eventos de competição esportiva do mundo, as olimpíadas e paralimpíadas do Rio. Em muitas modalidades a medalha de ouro e de bronze foi decidida por diferenças mínimas. Os determinantes desses aparentes “pequenos detalhes” são explicados pelo treino, pelo refinamento exaustivo das habilidades, pelas condições iniciais na cidade natal dos atletas, pelo suporte do poder público. Sem dúvida esses resultados estão relacionados ao conhecimento tácito (know-how) e ao aprendizado refinado pelos atletas ao longo de anos. 
São muitas as analogias com a competição entre as empresas. No mundo dos negócios, a competição também se dá pelo aperfeiçoamento de habilidades e combinação de conhecimentos ao longo de cadeias de valor e também determinadas por diversos fatores de competitividade. A competição no mundo dos negócios tem também suas diversas arenas, desde a competição entre as empresas do bairro, passando pelo município e territórios, setores/cadeias/aglomerados e até entre países. 


Não há um conceito único de competitividade, uma vez que existem várias dimensões e fatores que interferem na capacidade das firmas de competir. Proponho decompor os diversos indicadores que visam medir competitividade como uma forma de conceituá-la e de reconhecer seus determinantes. 

Competição entre Países
São diversos os indicadores que avaliam o nível de competitividade de países, como o Ranking Doing Business do Banco Mundial e o Business Environment Ranking do Economist Intelligence Unit. Quero aqui destacar especialmente os temas medidos por esses indicadores. As condições políticas, de infraestrutura e o ambiente de inovação determinam o grau de incerteza e as decisões entre investir ou não investir.


  • No plano macroeconômico, os indicadores sugerem que ter contas balanceadas (políticas fiscal e monetária, inflação controlada) e a abrir a economia ao comércio internacional são fatores positivos de competitividade. Já a incerteza sobre tributação (regras que variam frequentemente) e a volatilidade das taxas de inflação e câmbio aumentam os riscos nas previsões de retorno sobre investimentos. Por outro lado, um mercado financeiro desenvolvido, com acesso à crédito influencia positivamente a capacidade das firmas de competir.
  • Aspectos microeconômicos ou institucionais também são importantes. O ambiente regulatório, incluindo os elementos de custo, as facilidades para se abrir um negócio e mesmo para se pagar impostos também são fatores de competitividade. Nesse último quesito, temos uma péssima notícia para o Brasil.  Segundo o índice Doing Business, estamos na última posição em termos de horas por ano gastas com processos de pagamento de tributos. São 2.600 horas dedicadas ao mero esforço de pagamento de impostos, enquanto o penúltimo colocado, a Bolívia, registra menos da metade (1.025 horas). Este é um reflexo não somente da carga, mas da complexidade do nosso sistema tributário. Um exemplo anedótico é o de uma multinacional do agronegócio. Segundo o seu CEO no Brasil, ainda que a operação brasileira da empresa seja semelhante ao da América do Norte, no Brasil o setor tributário possui cerca de 100 pessoas, enquanto na América do Norte são necessárias apenas 10 pessoas para realizar o trabalho. Esse é um claro exemplo do chamado “custo Brasil”. 
  • Alguns indicadores também consideram o nível de corrupção dos países. Certamente os pagamentos de propinas geram custos elevados para realizar negócios em muitos locais do mundo. 
  • Outros elementos como infraestrutura e o nível de saúde e educação da força de trabalho são elementos de externalidades positivas para as empresas (conceito sobre o qual tratei anteriormente em outro post. Clique aqui para ver). 

O gráfico abaixo estabelece uma relação entre o ranking doing business (que mede o ambiente regulatório), o nível de prosperidade dos países (medido pelo PIB per capita) e grau de atração de investimento (medido pelo investimento estrangeiro per capita entre 2006 e 2012).


Observamos que países posicionados como ambientes favoráveis aos negócios são mais prósperos (mais ricos) e além disso, atraem mais investimentos de outros países, favorecendo ainda mais a multiplicação da riqueza.

Competitividade dos Estados e Municípios do Brasil

É possível também avaliar a competitividade em níveis subnacionais, para os Estados por exemplo. O Centro de Liderança Pública (CLP), instituição sem fins lucrativos, em parceria com o Economist Intelligence Unit (EIU), tem mensurado um indicador para os 26 Estados brasileiros, inspirado no ranking de competitividade de países. Esse indicador avalia critérios como a política de estímulo ao investimento estrangeiro, o regime regulatório e tributário das unidades federativas, as condições de infraestrutura e inovação, etc.

Há alguns outros indicadores que, em algum grau, medem a competitividade em níveis territoriais e municipais como por exemplo: o Índice de Desenvolvimento Municipal para a Micro e Pequena Empresa (IDMPE), o índice de competitividade dos municípios mineiros, o radar da lei geral da micro e pequena empresa, e ainda o índice Endeavor/Exame das cidades empreendedoras do Brasil e o Índice IBM das cidades mais competitivas do mundo. Aqui novamente são avaliadas as externalidades, sobretudo fatores de natureza qualitativa e de custo, que afetam a capacidade das empresas de competir. Creio que não é o caso aqui de detalhar os indicadores um a um. Maiores informações estão disponíveis nos slides da apresentação abaixo.


Competitividade Empresarial

A exemplo das dimensões sistêmica e estrutural, não há uma única definição de competitividade empresarial. No slide 26 da apresentação acima, listo 5 definições. Destes conceitos, o que mais me identifico é o de Barton (1992) para quem a competitividade empresarial:

É a capacidade das firmas em integrar, construir e reconfigurar recursos dispostos nos ambientes internos e externos a fim de ampliar seu desempenho, promovendo inovação e desenvolvimento econômico sustentável ao longo do tempo.

Diferentemente da lógica de externalidade, no nível empresarial a competitividade trata de fatores de domínio da empresa como produtividade, qualidade, inovação e marketing. Os indicadores no nível empresarial listados na apresentação (o modelo de excelência em gestão, os radares de gestão da inovação e o SCORE desenvolvido na Malásia) buscam justamente capturar tais elementos. Eficiência, produtividade e valor para os clientes são a regra do jogo na competição entre as firmas. Entretanto, como argumentei, há fatores externos às empresas muito relevantes e que exigem gestão e posicionamento:


No plano empresarial são necessárias ações e dedicação para o fortalecimento da empresa. No plano estrutural, é fundamental a articulação com parceiros, órgãos de governo e até mesmo concorrentes visando a cooperação para objetivos comuns (ex. regulações e tributações setoriais, formação profissional específica, etc.). No plano estrutural é necessário que a empresa reconheça as condições do ambiente e se posicione. Listo aqui as ações para um efetivo posicionamento: 
  1. Examine quais são os aspectos que realmente importam para o negócio
  2. Localize para cada um desses aspectos as tendências: de crescimento, estabilidade ou decréscimo
  3. Defina a importância para a empresa: se é alta, média ou baixa
  4. Aponte as principais ameaças e oportunidades para a empresa
  5. Especifique as ações para adaptar a empresa a tais mudanças

Para concluir

Competitividade é um fenômeno multidimensional e por isso não é possível definir um conceito único. Deste modo, sugiro explorar, por meio de indicadores, os possíveis conceitos e dimensões que influenciam a capacidade das empresas de competir. Algumas dessas dimensões estão sob o controle e influência direta da própria empresa. Porém alguns outros são de natureza estrutural ou sistêmica (fora de controle direto) mas que não exime o empresário/empreendedor de agir, por meio da cooperação e posicionamento.

Os governos (em nível federal, estadual e municipal) e as instituições representantes de interesses coletivos (sindicatos, associações, federações) têm um papel importante na busca incessante da melhoria do ambiente de negócios. Há exemplos fascinantes de melhorias nas condições para se empreender e de impacto no desenvolvimento de uma nação, como Cingapura (país número 1 no ranking Doing Business). A transformação de Cingapura (exemplo sobre o qual pretendo tratar posteriormente) é o resultado da sinergia de ações, cada um fazendo sua parte, envolvendo a melhoria contínua e combinada da gestão empresarial e pública resultando em desenvolvimento econômico e social.

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Sobre Fabio Hideki Ono

Um economista em busca de aprendizado e que acredita que boas práticas de gestão podem efetivamente levar ao desenvolvimento sustentável.

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